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‘Vivo para voltar’: o relato de uma palestina que nunca conheceu sua terra

5 de junho de 2024 48 Visualizações

Entre as cerca de 700 mil pessoas que deixaram o território palestino logo antes da criação do Estado de Israel, em maio de 1948, estavam os familiares de Rawa Alsagheer, palestina nascida na Síria que vive há nove anos como refugiada no Brasil. 

Mesmo sem nunca ter conhecido a terra natal da família, a jovem cineasta de 27 anos ressalta a importância de ser reconhecida e registrada como palestina. 

“Meu pai nasceu em Haifa, na Palestina histórica, foi expulso de casa aos oito anos com sua família, e foram todos refugiados para a Síria, onde quem nasce filho, neto e bisneto de refugiado palestino, desde 1948, pega [a certidão de] refúgio para não perder seu direito de retorno”, explica.

Em entrevista à Pavio, ela recorda que, ao desembarcar no Brasil, fugida da guerra civil síria, em 2015, enfrentou dificuldades para ter a nacionalidade reconhecida pelo Estado brasileiro: “Fiz uma briga falando em inglês, árabe, francês com o pessoal da Polícia Federal para me colocarem como palestina, e eles não entendiam”.

“Há uma ausência de informações de como são nossos documentos e como cadastrar a nossa nacionalidade. No Brasil, as pessoas falam: ‘ela tem ascendência árabe, tem origem síria, e tal’, mas isso para nós não existe porque uma das formas de resistência palestina é a nossa existência nos documentos, é sermos registrados como palestinos”, continua.

Sem memórias próprias do lugar onde nasceram e cresceram seu pai, seus avós e suas tias, Rawa carrega consigo, desde muito nova, as histórias e os costumes que herdou da família.

 

“Fui criada aprendendo a dizer que eu sou palestina, não apenas síria. Até dentro da casa era proibido falar sotaque sírio, tinha que falar sotaque palestino”, lembra Rawa.

Aos sete anos, ela já pesquisava sobre as histórias que ouvia nos encontros tradicionais de família, “quando juntava primos, primas, tias e tios, que começavam a falar sobre como era a vida antes da ocupação da Palestina”.

“Então, eu fui criada com aquela imaginação que Haifa era aquela cidade com pedras amarelas, bem antiga, com praia, ruas pequenas, uma comunidade bem amarrada, bem fortalecida”, completa.

Já sobre o período de refúgio da família de Rawa na Síria pós-Nakba, como é conhecida a primeira grande diáspora palestina que possibilitou a criação do Estado de Israel, a cineasta se lembra especialmente das histórias que ouvia sobre o seu avô paterno. 

Da chegada ao campo de refugiados palestinos na cidade síria de Homs, em 1948, até o seu falecimento, cerca de 30 anos depois, o patriarca da família Alsagheer se recusava a fazer do território sírio o seu novo lar.

“Meu avô não queria comprar nem panela, nem prato, porque dizia: ‘daqui a dez dias nós vamos voltar para a nossa casa’. Era sempre essa coisa de que eles não queriam ter uma casa porque daqui uns dias voltariam. Isso era o que mais repetiam”, conta Rawa.

“E imagina que isso foi até uns 30 anos depois da Nakba, e ele ainda não queria comprar coisas, não queria construir casa porque achava que ia voltar para a sua terra. Essa é uma das coisas mais marcantes na minha cabeça”, completa.

Desde o início do conflito entre Israel e Hamas, que vitimou mais de 36 mil palestinos, em sua maioria mulheres e crianças, segundo as Nações Unidas, e cerca de 1.200 israelenses, majoritariamente civis, de acordo com o governo de Israel, Rawa tem organizado e participado de manifestações e eventos em São Paulo como porta-voz da resistência palestina e coordenadora nacional do Samidoun, Rede De Solidariedade aos Prisioneiros Palestinos.

Paralelo entre brasileiros e palestinos

Em 2015, aos 17 anos, Rawa chegava ao Brasil como refugiada da guerra civil na Síria, onde as ofensivas militares do regime de Bashar al-Assad contra civis opositores haviam matado seu tio e dois de seus primos. Aqui, ela se reencontrou com seus irmãos e passou a perceber semelhanças entre a vida de brasileiros e palestinos. 

“Eu adoro o Brasil e a cultura verdadeira brasileira, adoro como a gente tem muitas coisas em comum, especialmente na luta. Quando eu olho nas periferias, eu vejo o sistema de apharteid, que é o mesmo que o povo palestino sofre na Palestina histórica. Quando eu olho para os indígenas, eu me vejo com eles, eu me enxergo com eles, enxergo meu pai no rosto deles. Pela forma como foram expulsos de suas terras, assassinados e massacrados ao longo da história”.

Como descendente de pessoas que nasceram na Palestina antes de 1948, Rawa é proibida pelo estado de Israel de retornar ao território palestino e, por isso, nunca conheceu o lugar onde cresceu sua família. Ainda assim, ela acredita viver “na geração da libertação palestina”.

Hoje, como o seu avô, que também nunca chegou a conhecer, ela afirma: “Eu vivo para voltar à Palestina. Até em relação a eu ter uma casa aqui, um emprego fixo, para mim, tudo bem se eu perder tudo, porque daqui a pouco vou voltar, vão libertar. Então, estou me sentindo no preparo, sentindo que a minha vida está acabando aqui e chegou o momento de me encontrar com o solo palestino”.


Reportagem: Manuela Rached Pereira, formada em Jornalismo. Hoje atua como repórter freelancer, com passagens por diferentes veículos de comunicação e organizações civis nacionais desde 2016. Como jornalista, ela cobriu principalmente pautas nas áreas de segurança pública, cultura e violações de direitos humanos, para os canais Fora, UOL, Ponte Jornalismo e O Joio e O Trigo.
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